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Psiquê e Comportamento

Jesus me curou

“Eu era muito sem vergonha mas Jesus me libertou”. Ouvi essa frase uns tempos atrás numa reunião de família. O povo de casa é nordestino, sangue quente, gente arretada. Religiosos também. Quero deixar bem claro que tudo bem você ter a sua religião, sua fé. Cada um escolhe sua crença. Mas algumas vezes isso atrapalha o entendimento para assuntos específicos. Sexualidade é um deles.

Primeiro ponto que quero tocar é o seguinte: em um determinado momento da vida a mulher passa por um processo chamado menopausa. É a época em que há uma queda drástica nos hormônios femininos, o estrogênio e a progesterona. Nossa! Que culta! Pessoa super bem informada, né nom? Nada, eu vi tudinho no site do Dr. Drauzio Varela. Vai lá que tem bastante coisa que todo mundo precisa saber.

Pois bem, é isso o que acontece. Essa queda hormonal afeta a mulher de muitas formas, tanto físicas como emocionais – e psicológicas também. A libido despenca, a lubrificação da vagina se torna escassa. Vamos ser bem claras? Não dá tesão pra transar assim. Imagina você lá com o boy, no maior clima e não lubrifica por nada. Muitos homens não entendem e acabam achando que não estão dando prazer para a mulher, ou simplesmente acham que a mulher não está a fim.

Não gente! Precisamos entender que é um processo natural do corpo. Existem tratamentos para amenizar os efeitos da menopausa. Homens também precisam aprender sobre o assunto. A gente não precisa encerrar a vida sexual no período da menopausa achando que Jesus curou da “safadeza”. Mesmo porque não há cura para algo que não é doença, certo?

Outro ponto é exatamente esse: a demonização do sexo e o domínio sobre o corpo feminino. Qual mulher nunca se sentiu presa ao que dizem ser o certo? Qual mulher nunca ouviu alguém falar “vai sair assim com essa saia curta”? Sim meu amor! Vou sair com a saia curta porque o corpo é meu e eu o visto como quero. Mas não é bem assim que a sociedade vê.

Michel Foucault foi um importante filósofo que, entre tantas coisas, abordou sobre a sexualidade em seus 3 Volumes de História da Sexualidade. Foucault fala muito sobre as relações de poder e como elas nos trouxeram para onde estamos hoje e também nos ajuda a entender de que forma o nosso corpo feminino foi sendo moldado durante o século XIX.

Para ele o nosso corpo foi qualificado, analisado e desqualificado sendo a nossa sexualidade construída com base nos papéis de gênero da nossa sociedade. É como se o corpo da mulher tivesse sido domesticado para se adequar ao esteriótipo feminino: aquela que nasceu para gerar vida, que é delicada, fina, portanto, frágil e submissa.


Ao contrário do que se discute, falar sobre sexualidade não é um problema, pelo contrário, é um tema que vem sendo discutido já há muito tempo, mas de uma forma manipulada pelos poderes. Por exemplo: sabemos que a repressão sexual é algo que sempre foi pregado pelos nossos avós e pelos nossos pais. Uma menina que se masturbava era vista como uma aberração repleta de demônios. Mas será que realmente era?
Obviamente que não. Mas então porque nos levaram a crer que o nosso corpo feminino é do jeito que é? Porque aceitamos esse esteriótipo de feminino?


Yuval Noah Harari, autor do best seller Sapiens – Uma breve história da humanidade, nos explica que nossa espécie humana construiu, ao longo de milhares de anos, algo que ele chama de Ordens imaginadas, que nada mais é que um conjunto de mitos partilhados.
Peguemos o mito do cristianismo como exemplo. Segundo a crença cristã a mulher deve se casar virgem, ser de um único homem e se unir a ele até o último dia de suas vidas. Mas a realidade não é essa.


Sabemos que comunidades primitivas (e algumas até hoje) acreditam que os filhos são resultado do acúmulo de esperma no útero feminino. Desse modo os filhos não seriam de um único pai, mas de todos. Pais e mães que cuidam de todos os filhos, que são responsáveis por toda comunidade. Uma utopia pra nós que vivemos num país que tem mais de 5 milhões de crianças sem o nome do pai em suas certidões de nascimento.

Portanto, é um mito essa história de mulher safada. Mulher que gosta de sexo é apenas uma pessoa normal. Afinal de contas todo mundo gosta do que é bom e sexo é bom, além de fazer um bem danado.

Eu sei que é muito difícil desmistificar temas como esse, mas é pra isso que estamos aqui, pra mostrar que nem tudo é como está. Vamos parar de demonizar o sexo e achar que não podemos praticá-lo. Podemos sim e devemos! Claro, no seu devido tempo e com total consentimento de ambas as partes.

No mais, bora ser feliz minha gente, porque gente feliz não enche o saco.

Referências

Por Sheila Chaves

Formada em Comunicação Social - rádio e televisão pela FMU/FIAM FAAM
Estudou Produção Executiva no Instituto de Cinema
Atualmente atua como editora de vídeo e áudio

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