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Psiquê e Comportamento

Carga mental

Já há algum tempo venho querendo falar sobre esse assunto que tanto aflige o sexo feminino. Não é um mero mi mi mi, como uns e outros gostam de falar. Há mulheres que veem certa glorificação no fato de lidarem com as tarefas do lar sem que seja necessária qualquer ajuda dos seus companheiros. Mas o fato é que carga mental é um assunto que está inserido na maioria esmagadora dos relacionamentos e isso geralmente acontece do masculino para o feminino.

Pra isso a gente precisa entender uma coisa chamada dominação masculina. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, dissertou sobre o tema em seu livro A Dominação Masculina. Recomendo que leia, devore, estraçalhe esse livro precioso. Mas guarda ele aí, porque antes precisamos falar de outra coisa.

Você já parou pra pensar como aconteceu essa coisa toda? Porque é “normal” que o homem seja o cara machão, que trabalha fora o dia todo para suprir sua amada família, enquanto que a mulher fica em casa, cuidando do lar, dos filhos e de suas particularidades? Ok, a gente sabe que hoje a mulher também trabalha fora, se emancipou (em partes) do homem, mas os cuidados do lar ainda são atribuídos a ela, ou melhor, a nós.

Façamos uma viagem no tempo. Estamos agora no final do período Paleolítico, começo do período Neolítico. Segundo Regina Navarro Lins, em seu O livro do amor, ela diz que “As características que determinam o Paleolítico são as evidências da cunhagem de ferramentas de pedra, pau e osso. O Neolítico é caracterizado pelo incremento da agricultura e pela formação de aldeias estáveis.” Ou seja, esse foi um período em que o homem passou de caçador a agricultor. Antes desses períodos atribuía-se a mulher a “divindade” de ser mãe pois a humanidade desconhecia que o homem era parte integrante da fecundação. Acreditava-se que as mulheres tinham o poder delas mesmas gerarem, por si só, os filhos e ainda o alimento necessário para que pudessem crescer fortes e saudáveis.

Yuval Noah Harari nos diz, em seu Best Seller Sapiens: Uma breve história da humanidade, que em algumas culturas acreditava-se que os filhos eram gerados a partir do acúmulo de esperma de cada homem com quem a mulher se relacionava. Não existia a esposa do Fulano, ou o marido da Beltrana, nem o filho da Maroca. Todos eram pais e mães dos filhos, a comunidade era igual.

Poderíamos até achar que houvesse algum tipo de dominação por parte do feminino, mas não. A igualdade reinava entre homens e mulheres.

Pois bem, com a evolução e a observação, o homem passou a cultivar sementes e criar gado. É aí que tá o pulo do gato. O homem começou a perceber que as ovelhinhas que não ficavam juntas dos carneirinhos não geravam filhotinhos. Daí pra ligar os pontos foi um passinho. Costumo dizer que foi aqui que começou a putaria toda. Homens, causando desde o Neolítico.

Pronto, a partir desse ponto instalou-se aquilo que a gente chama de patriarcado, uma sociedade regida pelo masculino. A demanda a partir desse momento era que as mulheres deveriam assegurar a ordem do lar, enquanto os homens cuidavam de trabalhar a terra e procriar o gado para prover a família. É claro que existem muito mais coisas nessa parte da história, mas este espaço é demasiado pequeno para compartilhar tudo de uma vez.

Lembra do Bourdieu que eu comentei logo ali acima? Então, olha só o que ele fala num trecho do livro A Dominação Masculina: “A divisão entre os sexos parece estar “na ordem das coisas”, como se diz por vezes pra falar do que é normal, natural, a ponto de ser inevitável: ela está presente, ao mesmo tempo, em estado objetivado nas coisas (na casa, por exemplo, cujas partes são todas sexuadas)…”

O que você pensa quando ele fala que as partes da casa são sexuadas? Lembra daquela frase machista que diz que lugar de mulher é na cozinha? Então, tá explicado. Não somos o que somos, nós somos o nosso sexo biológico. Antes de sermos seres humanos somos encarados como masculino e feminino na nossa concepção inconsciente que nos foi herdada através de estruturas históricas datadas do período Neolítico.

Agora que você já entendeu levemente como “evoluímos” para o sistema do patriarcado, voltemos aos nossos tempos atuais, tempos modernos, da revolução das máquinas, da era digital.

Imagina que você é mulher, trabalha fora de casa 8 horas por dia. Como todo paulistano, você gasta 4 horas dentro de transportes públicos para se locomover, ou seja, só nessa brincadeira você já passou 12 horas fora de casa. Sorte a sua se conseguir chegar em casa sem uma encochada no ônibus, uma passada de mão ou até mesmo uma gozada na calça!

Você finalmente chega em casa. Seu companheiro tá lá, lindo e belo te esperando pra jantar. Que gentileza! Só que não. Ele tá lá te esperando pra jantar porque ele não fez nada pra comer, porque ele não sabe fazer, porque ele não foi ensinado a fazer. Ok, você vai lá e faz um revirado de qualquer coisa só pra ninguém morrer de fome.

Aí, olha só que legal, ele avisa que chamou uns amigos para darem uma passadinha por lá pra tomar uma, jogar conversa fora. Você, como qualquer mulher, não vai querer receber os amigos com a casa toda suja. Bora arrumar. É nessa hora que você vê a toalha que foi deixada molhada em cima da cama e agora ela está fedendo e empestiando os lençóis com o cheiro; que o lixo do banheiro está transbordando de papel, literalmente, praticamente uma cascata de papel e cocô; que tem uma cueca no box ou no chão do banheiro que tá todo molhado porque o seu querido companheiro não se enxugou adequadamente; que a louça do jantar tá lá na pia fazendo companhia pra louça do café da manhã que foi deixada junto com a do jantar de ontem! Até que finalmente você chega na lavanderia (carregando todas as roupas que foram largadas no chão no cantinho do quarto) e vê que o tapetinho do dog não foi trocado há, pelo menos, dois dias.

O que acontece a seguir?

A — O lançamento da uma bomba nuclear

B — A facada do “mito”

C — Um ATP (ataque de pelanca)

D — Todas as alternativas

Carga mental é aquele peso mental que sobrecarrega nós mulheres. Mulheres também trabalham, mulheres também tem responsabilidades que não são a casa, o lar. Mulheres também pagam contas, boletos, faturas, mensalidades. Nós somos socialmente condicionadas a cuidar da casa e dos filhos enquanto que os homens não tomam pra si sua parcela de responsabilidade dentro do lar, obviamente porque, até pouco tempo, isso nunca lhes foi cobrado.

Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas, meninos menores de idade gastam duas horas por semana com serviços domésticos, enquanto as meninas da mesma idade passam sete horas ajudando em casa. Mulheres acima de 18 anos chegam a passar 23 horas por semana cuidando dos afazeres de casa. 23 horas. Um dia inteiro!

Meninos, fazer atividades domésticas não é ajudar, é parte da obrigação de duas pessoas que se dispõem a morar juntas. Os votos são de companheirismo e lealdade, cumplicidade. Seja cúmplice na louça também.

Eu escrevi isso tudo aqui porque nós estamos exaustas das duplas jornadas. Exaustas de sermos sempre as últimas a ficarem prontas pra festa porque, antes de tudo, nós estávamos limpando, lavando ou arrumando primeiro os filhos. Estamos cansadas de termos que ficar nos preocupando se, na hora que a visita chegar, estará tudo pronto. Estamos cansadas não somente de executar as tarefas de casa, mas de planejá-las também, porque carga mental também diz respeito ao planejamento do lar, ao pagamento das contas.

Enfim, espero ter ajudado na compreensão do termo!